Falar sobre 2036 como se houvesse um único futuro é confortável.
Permite escolher entre entusiasmo e medo.
A realidade provavelmente será mais confusa.
Tecnologias semelhantes podem produzir sociedades muito diferentes, dependendo de propriedade, política fiscal, dívida, instituições, cultura e capacidade de coordenação.
Em vez de uma previsão, faz mais sentido imaginar cenários.
Futuro 1 — Abundância distribuída
A inteligência artificial e a robótica elevam fortemente a produtividade.
Parte relevante dos ganhos chega à população por:
- serviços universais;
- redução da jornada;
- dividendos sociais;
- fundos públicos de tecnologia;
- ampla participação acionária;
- concorrência;
- sistemas abertos;
- direitos digitais.
Bens essenciais ficam mais baratos e acessíveis.
O emprego perde centralidade sem que renda e participação desapareçam.
Dívidas são ajustadas gradualmente. A tributação se desloca de salários para rendas econômicas, propriedade, recursos e lucros extraordinários.
Nesse cenário, dinheiro continua existindo, mas deixa de determinar completamente o acesso à sobrevivência.
É o futuro mais próximo da promessa de abundância.
Também exige a maior capacidade de coordenação política.
Futuro 2 — Abundância concentrada
A produtividade cresce, mas os ativos permanecem nas mãos de poucas empresas e Estados.
Produtos digitais e serviços automatizados ficam baratos.
A população recebe transferências suficientes para consumir uma base padronizada.
Terra, energia, privacidade, influência e propriedade ficam mais concentradas.
Há conforto material, mas pouca autonomia.
Plataformas acompanham comportamento e controlam acesso.
O dinheiro perde relevância em algumas transações, enquanto propriedade e permissão se tornam ainda mais importantes.
É uma sociedade estável enquanto os administradores preservam legitimidade.
Pode se tornar autoritária quando surgem conflitos.
Futuro 3 — Crise de transição e dívida-deflação
A automação avança mais rapidamente que a adaptação institucional.
Empregos e salários enfraquecem.
A renda se concentra.
Governos ampliam gastos para proteger a população, mas enfrentam arrecadação fraca e juros elevados.
Empresas e países precisam refinanciar grandes volumes de dívida.
A produtividade real cresce em alguns setores, porém preços, receitas e salários nominais não acompanham as obrigações.
O mercado passa a questionar a capacidade de pagamento.
Há falências, reestruturações, intervenções de bancos centrais, inflação em alguns países e deflação em outros.
A sociedade possui tecnologia avançada, mas atravessa instabilidade política.
Esse é o cenário em que a promessa da abundância chega envolvida por uma crise do sistema antigo.
Futuro 4 — Automação mais lenta e economia híbrida
A inteligência artificial transforma muitas tarefas, mas a robótica avança lentamente no mundo físico.
Profissões mudam sem desaparecer em massa.
Humanos continuam necessários em cuidado, negociação, responsabilidade, infraestrutura, segurança, operações físicas e relações de confiança.
A produtividade cresce, mas não o suficiente para tornar dinheiro irrelevante.
A sociedade passa décadas em um modelo híbrido:
- parte do trabalho é automatizada;
- parte é complementada;
- novas ocupações surgem;
- jornadas diminuem lentamente;
- sistemas sociais são reformados de maneira incremental.
Esse futuro é menos espetacular.
Talvez seja o mais plausível no curto prazo, justamente porque software, infraestrutura, política e cultura avançam em ritmos diferentes.
O que observar entre 2026 e 2036
Não saberemos o futuro por uma única demonstração tecnológica.
Será preciso acompanhar um conjunto de sinais.
Capacidade tecnológica
- A IA consegue executar processos completos ou apenas tarefas isoladas?
- Sistemas mantêm confiabilidade fora de ambientes controlados?
- Robôs generalistas tornam-se economicamente competitivos?
- O custo de computação e energia continua caindo?
Trabalho e renda
- A participação dos salários na renda diminui?
- Empregos de entrada estão desaparecendo?
- A produtividade aumenta salários medianos ou apenas lucros?
- A jornada cai?
- Pessoas deslocadas encontram novas funções com renda semelhante?
Propriedade
- O mercado de IA se concentra?
- Cidadãos e fundos públicos possuem parte da infraestrutura?
- Pequenas empresas conseguem usar sistemas competitivos?
- Há interoperabilidade e alternativas abertas?
Dívida e finanças
- Quanto da dívida precisa ser refinanciado a juros maiores?
- Governos preservam espaço fiscal?
- Investimentos em IA geram receita compatível?
- Mercados soberanos dependem cada vez mais de agentes alavancados?
- Bancos centrais intervêm com frequência crescente?
Limites físicos
- Redes elétricas acompanham a demanda?
- Há gargalos de chips, minerais e equipamentos?
- O custo da energia cai ou sobe?
- Ganhos de eficiência reduzem consumo total ou ampliam a demanda?
Instituições
- Renda e serviços se tornam direitos estáveis?
- Sistemas automatizados podem ser contestados?
- A educação prepara para autonomia ou apenas para empregos antigos?
- A política consegue distribuir ganhos antes que o ressentimento se acumule?
Uma agenda realista de transição
Não é necessário acreditar no fim do dinheiro para começar a se preparar.
Algumas medidas fazem sentido em quase todos os cenários.
Distribuir propriedade
Criar fundos de participação cidadã, ampliar investimento público em ativos produtivos e permitir que fundos de pensão participem dos ganhos tecnológicos.
Proteger a base material
Garantir saúde, educação, conectividade, alimentação e moradia básica reduz a violência da transição.
Redesenhar impostos
Uma economia menos dependente do trabalho precisa reduzir a dependência fiscal da folha salarial e alcançar rendas de monopólio, propriedade, recursos e ganhos de capital sem sufocar inovação produtiva.
Administrar dívidas antes da crise
Alongar vencimentos, diversificar investidores, reduzir fragilidades cambiais e evitar concentração de refinanciamentos em períodos curtos.
Transformar produtividade em tempo
Reduzir jornadas e compartilhar trabalho pode distribuir os ganhos antes que a automação complete a substituição.
Preservar concorrência e abertura
Interoperabilidade, padrões abertos, portabilidade e fiscalização de concentração reduzem dependência.
Criar direitos digitais
Acesso básico, privacidade, transparência, recurso contra decisões automatizadas e alternativas públicas precisam fazer parte do novo contrato social.
Reconstruir participação
Educação, cultura, cuidado, ciência, esporte e vida comunitária devem ser tratados como estruturas centrais, não como distrações depois do emprego.
O erro de esperar a abundância chegar
Há uma tentação de pensar que os problemas serão resolvidos quando a tecnologia estiver pronta.
Mas as instituições construídas durante a transição determinarão quem controlará a abundância quando ela chegar.
Se propriedade, dados, energia e computação se concentrarem primeiro, redistribuir poder depois será difícil.
Se dívidas continuarem crescendo com base em rendas que a automação enfraquece, o ajuste será mais doloroso.
Se a população perder trabalho antes de conquistar direitos, a reação poderá ser instabilidade, não entusiasmo.
O futuro não começa em 2036.
Ele é formado pelas decisões tomadas durante os anos anteriores.
A síntese da série
A hipótese de uma economia em que o dinheiro perde importância contém uma verdade importante:
Quando o trabalho humano deixa de ser o principal fator de produção, o salário não pode continuar sendo a única porta legítima de acesso à produção.
Mas essa verdade não determina o resultado.
As máquinas podem produzir abundância distribuída ou concentração extrema.
Podem liberar tempo ou criar dependência.
Podem tornar dívidas mais sustentáveis pelo crescimento ou mais pesadas pela queda das rendas nominais.
Podem reduzir a primazia do dinheiro ou substituí-lo por sistemas de permissão mais controladores.
O futuro será decidido por cinco perguntas:
- Quem possui as máquinas?
- Quem recebe a renda?
- Quem absorve as dívidas antigas?
- Quem decide o acesso ao que continua escasso?
- Como o ser humano encontra valor quando produtividade deixa de ser sua justificativa?
A tecnologia define o que se torna possível.
As instituições definem quem se beneficia.
E a cultura define o que faremos com a liberdade — caso consigamos distribuí-la.
Referências gerais da série
- The Economist. “An interview with Elon Musk”, 23 jul. 2026. Entrevista.
- Elon Musk Archive. “The Economist — Interview with Elon Musk”. Transcrição.
- FMI. Fiscal Monitor: Fiscal Policy under Pressure — High Debt, Rising Risks, abr. 2026. Relatório.
- OECD. Global Debt Report 2026. Relatório.
- Bank for International Settlements. Annual Economic Report 2026 — Chapter II. Relatório.
- Organização Internacional do Trabalho. A moment of choice: Harnessing artificial intelligence for decent work, 2026. Relatório.
- Organização Internacional do Trabalho. Generative AI and Jobs: A 2025 Update. Relatório.
- Banco Mundial. Digital Progress and Trends Report 2025: Strengthening AI Foundations. Relatório.
- Banco Central Europeu. “O que é a moeda?”. Explicação.
- Irving Fisher. “The Debt-Deflation Theory of Great Depressions”, 1933. PDF preservado pelo FRASER.