A inteligência artificial cria a impressão de que o futuro será composto apenas de software.
Não será.
Toda inteligência digital depende de uma base física.
Há chips em máquinas. Máquinas consomem energia. Energia depende de redes, usinas, combustíveis, minerais, licenças e território. Centros de dados exigem construção, refrigeração, conexão e manutenção.
Robôs precisam de metais, baterias, motores, sensores, fábricas e peças.
A economia da abundância continuará obedecendo às leis da física.
Pós-escassez não significa ausência de toda escassez
A expressão “pós-escassez” pode induzir ao erro.
A escassez não desaparece por completo. Ela muda de lugar.
Alguns bens podem se tornar quase ilimitados.
Outros permanecem limitados por natureza.
Bens altamente replicáveis
- textos;
- imagens;
- software;
- simulações;
- aulas digitais;
- entretenimento personalizado;
- projetos;
- diagnósticos iniciais;
- conhecimento estruturado.
Depois de criado o sistema, produzir uma unidade adicional pode custar muito pouco.
Bens industrializáveis
- roupas;
- móveis;
- eletrônicos;
- veículos;
- componentes;
- alimentos processados;
- parte das construções.
A automação pode reduzir custos, mas matérias-primas, energia e logística continuam necessárias.
Bens estruturalmente escassos
- terrenos em locais desejados;
- água em determinadas regiões;
- energia em horários críticos;
- minerais específicos;
- ecossistemas preservados;
- atenção humana;
- confiança;
- influência política;
- tempo de pessoas específicas;
- experiências únicas.
Nenhuma inteligência artificial pode criar duas localizações exatamente iguais.
Nenhum robô pode permitir que milhões de pessoas ocupem o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Por isso, algum sistema de distribuição continuará existindo.
A economia pode ficar barata embaixo e cara em cima
É possível imaginar uma sociedade em que a base material se torne muito acessível:
- alimentação padronizada;
- roupas;
- informação;
- entretenimento;
- transporte autônomo;
- atendimento automatizado;
- moradia compacta construída por robôs.
Ao mesmo tempo, aquilo que diferencia status e poder pode ficar mais caro:
- localização;
- privacidade;
- natureza preservada;
- atendimento humano;
- exclusividade;
- influência;
- acesso a círculos decisórios.
O dinheiro perderia importância para a sobrevivência e permaneceria decisivo para a distinção.
A desigualdade deixaria de aparecer apenas como “quem come e quem não come”.
Apareceria como “quem decide, quem possui espaço, quem tem privacidade e quem controla a infraestrutura”.
O recurso central pode ser energia
A inteligência artificial transforma eletricidade em capacidade cognitiva.
Robótica transforma energia em ação física.
Quanto mais a economia depender dessas tecnologias, mais energia confiável, barata e abundante se torna estratégica.
Países com capacidade de gerar energia, expandir redes e financiar infraestrutura terão vantagens.
Mas possuir energia bruta não basta.
É necessário convertê-la em capacidade industrial e computacional.
Um país pode exportar minerais e eletricidade enquanto importa os sistemas de maior valor agregado construídos com eles.
A diferença entre fornecedor de recursos e proprietário de tecnologia continuará sendo política.
A geopolítica do “compute”
O Banco Mundial resume a preparação para a inteligência artificial em quatro bases:
- conectividade;
- capacidade computacional;
- contexto local, incluindo dados e aplicações;
- competências humanas. (Banco Mundial. Digital Progress and Trends Report 2025: Strengthening AI Foundations. O relatório organiza a preparação para IA em conectividade, capacidade computacional, contexto e competências. Relatório.)
Esses elementos estão distribuídos de forma desigual.
Países ricos tendem a possuir mais capital, centros de pesquisa, infraestrutura digital e empresas tecnológicas.
Países de renda baixa e média podem ter populações jovens e recursos naturais, mas enfrentar limitações de energia confiável, conectividade, financiamento e capacidade computacional.
A inteligência artificial pode diminuir algumas barreiras ao conhecimento.
Também pode ampliar a distância entre países que criam sistemas e países que apenas os consomem.
O modelo de desenvolvimento baseado em trabalho barato pode enfraquecer
Durante décadas, vários países cresceram oferecendo:
- mão de obra industrial mais barata;
- centrais de atendimento;
- serviços administrativos;
- programação terceirizada;
- processamento de documentos;
- produção intensiva em trabalhadores.
A automação reduz parte dessa vantagem.
Se uma fábrica robotizada pode operar perto do mercado consumidor, salários baixos deixam de compensar transporte, risco geopolítico e complexidade logística.
Se uma inteligência artificial atende clientes em vários idiomas, centrais de serviço perdem parte de sua função.
Isso não significa que países emergentes ficarão sem oportunidades.
Significa que precisarão competir por outros fatores:
- energia;
- estabilidade institucional;
- mercado consumidor;
- integração regional;
- capacidade industrial;
- dados locais;
- educação;
- infraestrutura;
- recursos estratégicos;
- inovação própria.
A antiga escada do desenvolvimento pode não funcionar da mesma forma.
Remessas e moedas também podem ser afetadas
Muitos países dependem do dinheiro enviado por cidadãos que trabalham no exterior.
Se automação reduzir a demanda por determinados trabalhadores migrantes, as remessas podem cair.
Ao mesmo tempo, países importadores de tecnologia podem precisar de mais moeda estrangeira para pagar computação, licenças, equipamentos e serviços digitais.
A dependência tecnológica pode se transformar em dependência financeira.
Nações que controlam plataformas e moedas internacionais podem ampliar sua influência.
A geopolítica da IA não será apenas uma disputa por modelos mais inteligentes. Será uma disputa por quem recebe os fluxos monetários associados à infraestrutura.
A abundância pode aumentar o consumo de recursos
Quando algo fica mais barato, as pessoas e empresas podem passar a usá-lo mais.
Eficiência não garante redução absoluta do consumo.
Uma inteligência artificial que barateia projetos pode multiplicar a quantidade de projetos. Robôs baratos podem elevar a produção total. Transporte autônomo eficiente pode aumentar o número de deslocamentos.
A produtividade pode reduzir o uso de recursos por unidade e elevar o uso agregado.
Por isso, a abundância precisa ser compatível com limites ambientais.
Caso contrário, a sociedade trocará escassez monetária por pressão ecológica.
O mundo físico será o árbitro
Previsões tecnológicas costumam extrapolar a velocidade do software para toda a economia.
Mas construir uma usina, uma rede de transmissão, uma fábrica ou uma cidade leva tempo.
Licenças, território, materiais, segurança, manutenção e aceitação social não avançam na mesma velocidade que modelos digitais.
Esse descompasso provavelmente será uma das características da transição.
A inteligência pode se tornar abundante antes da energia.
Projetos podem se tornar abundantes antes dos materiais.
Capacidade de planejar pode crescer antes da capacidade de executar.
A pergunta geopolítica correta
Não basta perguntar qual país terá a melhor inteligência artificial.
É preciso perguntar qual país conseguirá reunir:
- inteligência;
- energia;
- indústria;
- capital;
- recursos;
- instituições;
- legitimidade social.
A abundância não será um produto puramente digital distribuído igualmente pelo planeta.
Ela será construída em territórios específicos, por organizações específicas e sob regras específicas.
O futuro poderá ser abundante em capacidade global e desigual em acesso nacional.
A geopolítica continuará existindo porque a matéria continuará ocupando espaço — e porque o poder também.