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As máquinas produzem mais, mas as dívidas continuam exigindo dinheiro

Veja como a automação pode aumentar a produção e, ao mesmo tempo, reduzir renda, preços e arrecadação, tornando dívidas antigas mais pesadas

Uma dívida é uma promessa feita no presente sobre uma renda que deverá existir no futuro.

Quando uma família financia uma casa, promete usar salários futuros para pagar as parcelas.

Quando uma empresa emite títulos, promete usar receitas e lucros futuros.

Quando um governo se endivida, promete usar impostos futuros ou novas emissões de dívida.

O sistema financeiro inteiro está construído sobre expectativas de fluxos monetários.

É justamente por isso que uma economia automatizada pode criar uma contradição histórica.

As máquinas podem aumentar a produção real enquanto reduzem parte da renda monetária das pessoas que precisam pagar os contratos antigos.

A sociedade se torna mais rica em bens e, ao mesmo tempo, mais frágil em dinheiro.

Dívida não é paga com produtividade abstrata

Um banco não recebe “capacidade produtiva” como pagamento de uma prestação.

Ele recebe moeda.

Uma empresa pode possuir uma fábrica extraordinariamente eficiente. Ainda assim, precisa gerar receita para pagar juros.

Um país pode produzir alimentos e energia em abundância. Ainda assim, se sua dívida estiver denominada em moeda estrangeira, precisa obter essa moeda.

Essa distinção entre riqueza real e obrigação nominal é central.

Riqueza real é a capacidade de produzir bens e serviços.

Dívida nominal é um valor fixado em moeda.

Os dois podem seguir trajetórias diferentes.

Um exemplo simples

Imagine uma empresa com:

  • receita anual de 100;
  • dívida de 100;
  • juros de 4% ao ano.

Ela paga 4 por ano em juros. A relação entre dívida e receita é de 100%.

Agora imagine que a automação reduza os preços de seus produtos. A empresa passa a produzir mais unidades, mas cada unidade é vendida por menos.

Sua produção física cresce, porém a receita nominal cai para 80.

A dívida continua em 100.

A relação entre dívida e receita sobe para 125%.

Se o refinanciamento ocorrer a uma taxa de 7%, o gasto anual com juros passa de 4 para 7.

A empresa está mais produtiva em termos físicos e mais pressionada financeiramente.

O mesmo raciocínio pode atingir famílias e governos.

Por que a deflação pesa sobre as dívidas

Quando preços e rendas caem, o valor nominal das dívidas não diminui automaticamente.

Uma parcela de R$ 3 mil continua sendo R$ 3 mil mesmo que o salário do devedor caia 20%.

Um título de R$ 1 bilhão continua exigindo R$ 1 bilhão no vencimento mesmo que a arrecadação do governo diminua.

Esse mecanismo é conhecido na economia como dívida-deflação.

Irving Fisher descreveu, ainda em 1933, como a tentativa coletiva de reduzir dívidas pode pressionar preços, rendas e ativos, tornando o peso real das obrigações ainda maior. (Irving Fisher. “The Debt-Deflation Theory of Great Depressions”, Econometrica, 1933. Cópia preservada pelo FRASER, Federal Reserve Bank of St. Louis. PDF.)

A lógica é circular:

  1. Devedores vendem ativos e cortam gastos para pagar dívidas.
  2. As vendas e os cortes reduzem preços e renda.
  3. A queda da renda torna a dívida restante mais pesada.
  4. Novos cortes e vendas se tornam necessários.

A automação poderia introduzir uma versão diferente desse problema.

A deflação não viria apenas de uma crise financeira. Poderia vir de um salto de produtividade que reduzisse preços mais rapidamente que a reorganização dos contratos e das rendas.

A dívida supõe continuidade

Contratos de longo prazo carregam uma hipótese silenciosa: o mundo de amanhã será suficientemente parecido com o mundo de hoje para que o pagamento continue possível.

Um financiamento imobiliário de trinta anos supõe que haverá renda familiar.

Títulos públicos de longo prazo supõem que haverá base tributária.

Dívidas corporativas supõem que haverá consumidores, receitas e margens.

Uma ruptura tecnológica não precisa destruir a produção para abalar essas hipóteses. Basta alterar quem recebe a renda.

Se os lucros crescem em poucas empresas, mas salários e pequenas receitas diminuem, a economia agregada pode parecer produtiva enquanto grande número de devedores se fragiliza.

O problema tributário

Governos arrecadam por diferentes caminhos:

  • renda do trabalho;
  • consumo;
  • lucro empresarial;
  • propriedade;
  • transações;
  • importações;
  • contribuições sobre a folha salarial.

Uma economia com menos trabalho humano pode reduzir a arrecadação sobre salários e contribuições previdenciárias.

Ao mesmo tempo, o governo pode enfrentar maiores despesas com:

  • proteção de renda;
  • requalificação;
  • saúde mental;
  • habitação;
  • estabilização de setores;
  • apoio a regiões atingidas;
  • infraestrutura energética e digital.

A pressão aparece dos dois lados: menos receita em bases tradicionais e mais demanda por proteção.

Caso os ganhos da automação estejam concentrados em empresas capazes de mover lucros, propriedade intelectual e operações entre países, a tributação se torna ainda mais difícil.

A transição pode ser inflacionária antes de ser deflacionária

Musk imagina um futuro em que a produção cresce tão rapidamente que a deflação se torna o problema principal.

Isso pode acontecer em alguns setores.

Mas a construção desse futuro exige:

  • energia;
  • cobre;
  • chips;
  • redes elétricas;
  • centros de dados;
  • sistemas de refrigeração;
  • fábricas;
  • terrenos;
  • profissionais especializados;
  • grandes volumes de capital.

Esses recursos não surgem instantaneamente.

Durante a transição, pode haver inflação nos gargalos e deflação nos produtos automatizados.

Serviços digitais podem ficar mais baratos enquanto energia e moradia ficam mais caras.

O trabalho de escritório pode perder valor enquanto eletricistas, técnicos de rede e profissionais de infraestrutura se tornam mais disputados.

A economia não caminhará em uma única direção de preços.

A dívida também pode se tornar mais sustentável

O risco não é inevitável.

Se a automação elevar produtividade, salários complementares, lucros tributáveis e crescimento econômico, as dívidas podem se tornar mais fáceis de pagar.

Uma economia maior suporta um estoque maior de obrigações.

O problema surge quando três velocidades se desencontram:

  • a produção cresce rapidamente;
  • a renda se concentra;
  • as instituições fiscais e financeiras se adaptam lentamente.

Nesse caso, os ganhos reais não chegam a tempo aos agentes responsáveis pelos pagamentos nominais.

O contrato antigo diante do mundo novo

Uma sociedade automatizada herdará hipotecas, títulos públicos, dívidas empresariais, fundos de pensão, seguros e promessas previdenciárias formadas sob outra estrutura produtiva.

Esses contratos não desaparecerão porque um robô se tornou eficiente.

Será necessário decidir como ajustá-los.

As alternativas incluem:

  • alongar vencimentos;
  • reduzir juros;
  • reestruturar obrigações;
  • indexar contratos de novas formas;
  • converter parte da dívida em participação;
  • usar inflação moderada para reduzir valores reais;
  • realizar transferências para devedores;
  • reconhecer perdas.

Cada solução distribui custos entre grupos diferentes.

Não existe cancelamento neutro. A dívida de alguém é o ativo de outra pessoa, empresa, banco ou fundo de aposentadoria.

Por isso, a transição depois do trabalho não será apenas um debate sobre renda futura.

Será também uma disputa sobre quem absorverá as promessas financeiras feitas no passado.

Referências

  • FMI. “Deflation and Public Finances: Evidence from the Historical Records”, 2015. O estudo encontra efeitos negativos da deflação sobre razões de dívida pública, especialmente por meio da relação entre juros e crescimento. Estudo.
  • FMI. “The Fiscal and Financial Risks of a High-Debt, Slow-Growth World”, 28 mar. 2024. Artigo.
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