A pergunta mais importante sobre inteligência artificial não é quantos empregos ela eliminará.
É esta:
Quem possuirá os sistemas que passarão a realizar o trabalho?
Durante a era industrial, a renda foi dividida de forma imperfeita entre trabalho e capital.
Trabalhadores recebiam salários.
Proprietários recebiam lucros, juros, aluguéis e valorização dos ativos.
Quando máquinas assumem uma parte maior da produção, a renda tende a se deslocar na direção de quem possui as máquinas — a menos que as regras de propriedade também mudem.
A inteligência artificial pode democratizar capacidades. Mas a infraestrutura necessária para operá-la em grande escala é cara e concentrada.
Modelos avançados dependem de centros de dados, chips, energia, redes, dados, talentos especializados e acesso a capital.
Quanto maior a importância desses ativos, maior a diferença entre quem usa uma ferramenta e quem controla a estrutura.
Três sociedades podem nascer da mesma tecnologia
A mesma capacidade produtiva pode sustentar formas sociais muito diferentes.
1. Abundância privada e concentrada
Poucas empresas possuem inteligência artificial, robôs, plataformas e infraestrutura.
A maioria das pessoas recebe serviços baratos ou gratuitos, além de alguma transferência de renda.
Materialmente, a vida pode melhorar.
Politicamente, porém, a população se torna dependente de decisões tomadas por proprietários privados.
Nesse modelo, o problema não é necessariamente a falta de bens. É a falta de poder de negociação.
Uma pessoa pode receber alimentação, entretenimento e serviços digitais e ainda não possuir influência sobre as regras que organizam sua vida.
2. Abundância estatal
O Estado controla ou coordena grande parte da infraestrutura automatizada.
A produção é usada para financiar serviços universais e garantir acesso básico.
Esse modelo pode reduzir desigualdade e assegurar direitos.
Também pode concentrar poder político.
Quando a mesma instituição controla renda, identidade digital, serviços e autorização de acesso, discordar do governo pode se tornar arriscado.
A abundância pública só é emancipadora quando vem acompanhada de democracia, transparência, direitos e possibilidade de contestação.
3. Abundância distribuída
Cidadãos, fundos públicos, cooperativas, municípios, trabalhadores e investidores possuem parcelas da infraestrutura produtiva.
A renda chega à população não apenas por assistência, mas por dividendos e direitos de propriedade.
Esse arranjo reduz a separação entre “donos das máquinas” e “pessoas sustentadas pelas máquinas”.
É provavelmente o modelo mais favorável à autonomia.
Também é o mais difícil de construir, porque exige mudar a distribuição dos ativos antes que a concentração se torne praticamente irreversível.
Renda universal não é a mesma coisa que propriedade universal
Uma renda garantida pode proteger a sobrevivência.
Mas existe uma diferença política entre receber um benefício e receber um dividendo.
O benefício pode ser interpretado como concessão.
O dividendo decorre de uma participação reconhecida.
No primeiro caso, alguém poderoso transfere parte do que possui.
No segundo, a pessoa recebe retorno sobre algo que também lhe pertence.
Essa diferença afeta autoestima, estabilidade e poder.
Uma sociedade pode garantir renda alta e ainda manter a população em posição de dependência, caso os ativos permaneçam concentrados.
Por isso, o debate não deveria parar na renda básica.
Deveria incluir:
- fundos soberanos de tecnologia;
- fundos de propriedade cidadã;
- participação de fundos de pensão em infraestrutura de IA;
- cooperativas de dados e computação;
- ações públicas em empresas beneficiadas por pesquisa estatal;
- dividendos sobre recursos naturais e infraestrutura;
- propriedade municipal ou comunitária de sistemas locais;
- regras antimonopólio e interoperabilidade.
Nenhum instrumento é suficiente sozinho. O objetivo comum seria transformar parte da produtividade automática em patrimônio coletivo.
Quem possui dados não possui necessariamente poder real
Há uma narrativa segundo a qual cada pessoa poderia ser remunerada pelos próprios dados.
A ideia parece justa, mas pode ser insuficiente.
Dados individuais isolados costumam ter pouco valor. O valor surge quando milhões de registros são agregados, processados e combinados com computação, modelos, distribuição e capital.
Pagar centavos pelos dados não altera a propriedade da infraestrutura.
Pode até legitimar uma relação desigual: a pessoa recebe uma pequena compensação enquanto a plataforma mantém o poder estratégico.
A questão não é apenas “quanto meus dados valem?”.
É “quem controla o sistema que transforma dados em capacidade?”.
O risco de uma servidão confortável
A história costuma associar opressão à privação.
O futuro pode produzir uma forma diferente de dependência: conforto sem autonomia.
Imagine uma sociedade em que todos recebem moradia básica, alimentação, saúde automatizada e entretenimento personalizado.
Em troca, quase todas as atividades passam por uma identidade digital.
O sistema conhece consumo, deslocamentos, relações, preferências e comportamento.
O acesso pode ser ajustado em tempo real.
Formalmente, o dinheiro perdeu importância.
Na prática, a permissão se tornou personalizada.
Uma moeda comum possui defeitos, mas também oferece certa neutralidade. Quem recebe dinheiro pode escolher como usá-lo dentro da lei.
Um sistema de benefícios programáveis pode determinar quais produtos, lugares e serviços estão disponíveis para cada pessoa.
O dinheiro pode desaparecer e ser substituído por um mecanismo de controle mais preciso.
Direitos precisam vir antes da abundância
Para que a automação amplie liberdade, alguns princípios precisam ser protegidos:
- acesso básico como direito, não favor;
- devido processo antes da suspensão de serviços;
- possibilidade de recorrer de decisões automatizadas;
- privacidade e limitação de vigilância;
- interoperabilidade entre plataformas;
- portabilidade de identidade e histórico;
- alternativas públicas e offline;
- liberdade de associação;
- transparência sobre critérios de distribuição;
- pluralidade de formas de pagamento e acesso.
A abundância sem direitos cria dependência.
Os direitos sem capacidade material podem se tornar promessas vazias.
O desafio é construir os dois.
A concentração pode se reforçar sozinha
Sistemas de inteligência artificial apresentam efeitos de escala.
Mais usuários geram mais dados, receita e capacidade de investimento. Mais capital compra mais computação. Mais computação melhora produtos. Produtos melhores atraem mais usuários.
Esse ciclo pode favorecer poucas organizações.
O FMI e a OCDE têm destacado que os benefícios da inteligência artificial podem ampliar desigualdades quando os retornos ao capital, à qualificação e à propriedade se concentram. (FMI. AI Adoption and Inequality, abr. 2025. O estudo analisa diferentes canais pelos quais adoção de IA, salários e retornos do capital podem alterar a desigualdade. Estudo.; OECD. The impact of Artificial Intelligence on productivity, distribution and growth. Estudo.)
A competição não desaparece necessariamente. Mas o custo de alcançar a fronteira tecnológica pode limitar quem consegue competir.
Por isso, esperar a concentração acontecer para depois redistribuir seus resultados pode ser mais difícil que construir participação desde o início.
A pergunta que define a liberdade futura
Em uma economia baseada no trabalho, a pessoa possui pelo menos sua capacidade de trabalhar, embora a venda dessa capacidade ocorra em condições desiguais.
Em uma economia baseada em máquinas, quem não possui ativos pode perder até essa fonte de negociação.
Se sua força de trabalho não é necessária e sua renda depende inteiramente de uma transferência, qual é seu poder diante de quem controla a transferência?
Essa é a questão política central da abundância.
O futuro não será definido apenas por quanto as máquinas produzirão.
Será definido por quantas pessoas terão participação reconhecida naquilo que as máquinas produzem.
Referências
- Bank of England. “Why does money depend on trust?”. Artigo.